O som monótono do mar arrastando a areia, tragando-a e vomitando-a,
enchia os nossos ouvidos, era noite e a luz lunar estava bem forte, iluminava
quase toda a praia, a arrebentação ali adiante explodia nos cachos delicados de
espuma, a lua com sua irresistível atração. Selene atraindo Poseidon, era tudo
o que eu conseguia pensar.
Os olhos dela ao meu lado estavam
rasgados, tão grandes quanto você acha que o mundo é grande, a boca era um
esgar aberto e frouxo, passei as mãos pelos meus cabelos sem me importar com o
sangue que molhava minha fronte, sem me importar com nada, somente com o som da
arrebentação e o ciclo lunar, a minguante convexa sobre nossas cabeças tão
pontuda quanto a faca que ela enterrou no cara. Do nosso carro saia um som
fraco, de estática e, de vez em quando, um fanático religioso berrando suas
pragas, flagelando nossos ouvidos como deus flagela a terra com seus castigos,
ela suspirava de vez em quando, o som se formando no fundo da goela e subindo.
Então vomitou e começou a chorar, agarrou os meus braços e começou a tremer.
-O que a gente fez? O que a gente fez?! –Ela perguntava aquilo como se
não soubesse, como se por mágica todo aquele sangue teria aparecido no rosto
dela, a parte da blusa onde estavam os seios pequenos e delicados já dura com
sangue seco. Eu não respondi nada,
estava mudo. As palavras travavam na minha garganta, o sangue quase preto no
meu rosto sob a luz da lua, eu precisava de um mudslide ou de um white russian
pra falar qualquer coisa, até pra tirar a bunda daquela areia pra parar de
encarar aqueles olhos escuros tão rasgados e banhados de pranto.
Ela levanta-se, desesperada, eu
digo que foi melhor assim, ele estava drogado haviam quatro dias e o manter
longe da cidade não foi uma opção, ele ia nos matar se não tivéssemos o feito
antes. Ela grita e pergunta o que vai dizer pra mãe, eu não sei, respondo.
Entro na casa toda destruída, foi
ruim ter de matar o cara mas eu estou aqui não estou? Vivo. E ela também, é a
única coisa que eu tenho no mundo, o sangue ribombando naquelas veias azuis,
então tudo cai com a vigorosa batida do rock n roll, com os pés enterrados na
areia ela põe um disco no rádio do carro e abre as portas.
Pauzinhos de picolé e papéis de
bala jogados naquela praia junto com camisinhas usadas e o som distante do mar
quebrando, tudo aquilo misturado com o cheiro hediondo e adocicado de sangue.
Os meus discos dos Stones e dos Kinks arrebentados no chão, meus lábios
despedaçados de onde ele me acertou com o aparelho de som, lá fora ela está com
a cabeça entre os joelhos, vomitando novamente, as mãos bonitas, lindas e num
frêmito incontrolável debaixo de um torrente sonora.
MEDICATION FOR US ALL, IT IS A NEW WAY
& WE’RE GONNA TAKE IT ‘CAUSE WE LOVE IT
DON’T YOU KNOW?
O corpo da cara está lá, todo arrebentado e a facada indo do peito até o
umbigo, aberta e sangrando. Seria logo devorado pelos carniceiros da praia se
nós o enterrássemos já, mas a areia revolvida ia ser facilmente reconhecível.
Ela troca de música, ouço o tap tap enjoativo das lágrimas caindo nos joelhos
enquanto ela troca de faixa.
EVERYBODY KNOWS THAT YOU’RE INSANE
YOU WANNA KNOW
JUST HOW LONG YOU CAN HIDE FROM WHAT YOU ARE
Bem a calhar essa música, encaixo os sovacos dele nas minhas mãos e o
arrasto até a porta, deixo o corpo cair mole lá com a certeza que é apenas
matéria inerte, tiro meus chinelos e corro em direção ao mar, tenho a
consciência de que ela me olha de longe
AND I FEEL NOTHING
AM I BETTER YET?
A água salgada penetrando meus
olhos abertos e ardendo, deve ter ardido assim quando enterrei meus dedos
naquele pescoço, ele nem deve ter sentido,
a quantidade de crack que ele pôs por dentro das costuras da mala foi o
suficiente para ele ficar louco e depois querer mais e mais e mais. E eu tinha
oferecido meu final de semana para cuidar dele, levá-lo para pescar e ver o
mar. Não tive outra escolha, não tivemos, ela matou o próprio irmão com uma
faca de cozinha, a faca entrando macia como na carne que eu preparei pro almoço
amanhã. E eu vi o fundo azul cheio de bolhas pequeninas e azuladas sob a luz,
ela estava sobre mim, afundando-me. As mãos tremiam na minha garganta e o rosto
pálido como a máscara da morte, me desesperei e lhe acertei o joelho com um
chute, ela me largou finalmente mas eu já havia engolido água demais, não
raciocinava direito. Ao longe Queens of the Stone Age tocando Burn the Witch
Burn... queime.
Agarrei-a pelos ombros e a sacudi,
ela tentava se desvencilhar e cuspiu em mim, me arranhou mas me mantive firme
era tarde demais, tínhamos ido longe demais, não era hora de crise. Ele estava
bem. Lhe acertei um tapa.
-Você queria ver seu irmão morto de outro jeito com quinze balas enfiadas
no rabo? Queria?! Ele não se controlou, não teve jeito. O estado dele já era
crítico e não havia nem perspectiva de recuperação, olha pra mim! Ele já estava
deprimido e com rabdomíolise, ele ia, pare de se sacudir, ele ia se suicidar.
Era ou ele ou nós, se ele chegasse até a cozinha, a gente já era. Era isso que
sua mãe ia querer?! Hein!? –Eu gritava com ela, os olhos dela ficando maiores e
maiores. Ela desmoronou no meu peito chorando e perguntando o que faríamos
BURN THE WITCH
BURN TO ASH AND BONE
Os primeiros acordes de In My Head
tocando, fechamos tudo e abrimos o gás, o que estava no fogão e o reserva, mais
o da churrasqueira, antes trocamos de roupa, amarramos as velhas e a faca, o
aparelho de som e o que eu havia tocado em uma daquelas pedras grandes a beira
mar, afundamos tudo aquilo com nossa culpa. Nossos amigos deviam estar em seus
cafés e jantando agora, nas suas festas moderninhas ouvindo sucessos from UK,
pensava em filmes de terror e em Stephen King quando afundei as provas do meu
crime nas águas plácidas e convidativas, o olhar dela era o de quem queria
pular junto e afundar com aqueles objetos tão simples e incriminadores.
Abracei-a dizendo que pela manhã tudo ia estar bem, tudo ia estar bem.
Dirigimos pela areia enquanto ela troca o disco, o rosto seco.
Última faixa e ela deita a cabeça
nos meus ombros, pequenos soluços espaçados enquanto ela canta.
Somehow they pick and pluck
Tenderize bones to dust
The sweetest grease ,finest meat you’ll ever
taste
Taste
Atrás de nós o clarão laranja baço e incandescente na noite, fico
pensando em voltar àquele lugar e ver se o calor transformou a areia em vidro,
mas não posso, sei que nesse momento estão investigando o suicídio dele, vamos
escapar dessa. Ela mente bem, tão bem que até desconfio que minta para mim. Mas
o que ficou gravado no meu cérebro mesmo foi o clarão do fogo, naquele momento
todos os nossos sentidos estavam em chamas.
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