terça-feira, 25 de junho de 2013

Ventos da Maré

 O som monótono do mar arrastando a areia, tragando-a e vomitando-a, enchia os nossos ouvidos, era noite e a luz lunar estava bem forte, iluminava quase toda a praia, a arrebentação ali adiante explodia nos cachos delicados de espuma, a lua com sua irresistível atração. Selene atraindo Poseidon, era tudo o que eu conseguia pensar.
 Os olhos dela ao meu lado estavam rasgados, tão grandes quanto você acha que o mundo é grande, a boca era um esgar aberto e frouxo, passei as mãos pelos meus cabelos sem me importar com o sangue que molhava minha fronte, sem me importar com nada, somente com o som da arrebentação e o ciclo lunar, a minguante convexa sobre nossas cabeças tão pontuda quanto a faca que ela enterrou no cara. Do nosso carro saia um som fraco, de estática e, de vez em quando, um fanático religioso berrando suas pragas, flagelando nossos ouvidos como deus flagela a terra com seus castigos, ela suspirava de vez em quando, o som se formando no fundo da goela e subindo. Então vomitou e começou a chorar, agarrou os meus braços e começou a tremer.
-O que a gente fez? O que a gente fez?! –Ela perguntava aquilo como se não soubesse, como se por mágica todo aquele sangue teria aparecido no rosto dela, a parte da blusa onde estavam os seios pequenos e delicados já dura com sangue seco.  Eu não respondi nada, estava mudo. As palavras travavam na minha garganta, o sangue quase preto no meu rosto sob a luz da lua, eu precisava de um mudslide ou de um white russian pra falar qualquer coisa, até pra tirar a bunda daquela areia pra parar de encarar aqueles olhos escuros tão rasgados e banhados de pranto.
  Ela levanta-se, desesperada, eu digo que foi melhor assim, ele estava drogado haviam quatro dias e o manter longe da cidade não foi uma opção, ele ia nos matar se não tivéssemos o feito antes. Ela grita e pergunta o que vai dizer pra mãe, eu não sei, respondo.
 Entro na casa toda destruída, foi ruim ter de matar o cara mas eu estou aqui não estou? Vivo. E ela também, é a única coisa que eu tenho no mundo, o sangue ribombando naquelas veias azuis, então tudo cai com a vigorosa batida do rock n roll, com os pés enterrados na areia ela põe um disco no rádio do carro e abre as portas.
  Pauzinhos de picolé e papéis de bala jogados naquela praia junto com camisinhas usadas e o som distante do mar quebrando, tudo aquilo misturado com o cheiro hediondo e adocicado de sangue. Os meus discos dos Stones e dos Kinks arrebentados no chão, meus lábios despedaçados de onde ele me acertou com o aparelho de som, lá fora ela está com a cabeça entre os joelhos, vomitando novamente, as mãos bonitas, lindas e num frêmito incontrolável debaixo de um torrente sonora.

MEDICATION FOR US ALL, IT IS A NEW WAY
& WE’RE GONNA TAKE IT ‘CAUSE WE LOVE IT
DON’T YOU KNOW?

O corpo da cara está lá, todo arrebentado e a facada indo do peito até o umbigo, aberta e sangrando. Seria logo devorado pelos carniceiros da praia se nós o enterrássemos já, mas a areia revolvida ia ser facilmente reconhecível. Ela troca de música, ouço o tap tap enjoativo das lágrimas caindo nos joelhos enquanto ela troca de faixa.

EVERYBODY KNOWS THAT YOU’RE INSANE
YOU WANNA KNOW
JUST HOW LONG YOU CAN HIDE FROM WHAT YOU ARE

Bem a calhar essa música, encaixo os sovacos dele nas minhas mãos e o arrasto até a porta, deixo o corpo cair mole lá com a certeza que é apenas matéria inerte, tiro meus chinelos e corro em direção ao mar, tenho a consciência de que ela me olha de longe

 AND I FEEL NOTHING
AM I BETTER YET?

A água salgada penetrando meus olhos abertos e ardendo, deve ter ardido assim quando enterrei meus dedos naquele pescoço, ele nem deve ter sentido,  a quantidade de crack que ele pôs por dentro das costuras da mala foi o suficiente para ele ficar louco e depois querer mais e mais e mais. E eu tinha oferecido meu final de semana para cuidar dele, levá-lo para pescar e ver o mar. Não tive outra escolha, não tivemos, ela matou o próprio irmão com uma faca de cozinha, a faca entrando macia como na carne que eu preparei pro almoço amanhã. E eu vi o fundo azul cheio de bolhas pequeninas e azuladas sob a luz, ela estava sobre mim, afundando-me. As mãos tremiam na minha garganta e o rosto pálido como a máscara da morte, me desesperei e lhe acertei o joelho com um chute, ela me largou finalmente mas eu já havia engolido água demais, não raciocinava direito. Ao longe Queens of the Stone Age tocando Burn the Witch
 Burn... queime.
 Agarrei-a pelos ombros e a sacudi, ela tentava se desvencilhar e cuspiu em mim, me arranhou mas me mantive firme era tarde demais, tínhamos ido longe demais, não era hora de crise. Ele estava bem. Lhe acertei um tapa.

-Você queria ver seu irmão morto de outro jeito com quinze balas enfiadas no rabo? Queria?! Ele não se controlou, não teve jeito. O estado dele já era crítico e não havia nem perspectiva de recuperação, olha pra mim! Ele já estava deprimido e com rabdomíolise, ele ia, pare de se sacudir, ele ia se suicidar. Era ou ele ou nós, se ele chegasse até a cozinha, a gente já era. Era isso que sua mãe ia querer?! Hein!? –Eu gritava com ela, os olhos dela ficando maiores e maiores. Ela desmoronou no meu peito chorando e perguntando o que faríamos

BURN THE WITCH
BURN TO ASH AND BONE

 Os primeiros acordes de In My Head tocando, fechamos tudo e abrimos o gás, o que estava no fogão e o reserva, mais o da churrasqueira, antes trocamos de roupa, amarramos as velhas e a faca, o aparelho de som e o que eu havia tocado em uma daquelas pedras grandes a beira mar, afundamos tudo aquilo com nossa culpa. Nossos amigos deviam estar em seus cafés e jantando agora, nas suas festas moderninhas ouvindo sucessos from UK, pensava em filmes de terror e em Stephen King quando afundei as provas do meu crime nas águas plácidas e convidativas, o olhar dela era o de quem queria pular junto e afundar com aqueles objetos tão simples e incriminadores. Abracei-a dizendo que pela manhã tudo ia estar bem, tudo ia estar bem. Dirigimos pela areia enquanto ela troca o disco, o rosto seco.
 Última faixa e ela deita a cabeça nos meus ombros, pequenos soluços espaçados enquanto ela canta.

 Somehow they pick and pluck
Tenderize bones to dust
The sweetest grease ,finest meat you’ll ever taste
Taste


  Atrás de nós o clarão laranja baço e incandescente na noite, fico pensando em voltar àquele lugar e ver se o calor transformou a areia em vidro, mas não posso, sei que nesse momento estão investigando o suicídio dele, vamos escapar dessa. Ela mente bem, tão bem que até desconfio que minta para mim. Mas o que ficou gravado no meu cérebro mesmo foi o clarão do fogo, naquele momento todos os nossos sentidos estavam em chamas.